Motorocker – Igreja Universal do Reino do Rock (2016, Neves Records/Melômano Discos/Let’s Rock)

O Motorocker é o exemplo de que trabalho duro e talento fazem a diferença. Mesmo antes da popularização da Internet – mas posteriormente se aproveitando disso – a banda angariou fãs sem uma estrutura de selos ou gravadoras de grande porte e sem fazer parte do establishment. Na ativa desde 1992, capitaneada pelo carismático vocalista Marcelus, lutou para se impor como banda autoral e para se profissionalizar em um mercado injusto. Na contramão de tudo e em tempos de streaming legais e downloads ilegais a banda contabiliza mais de 30.000 cópias vendidas dos seus 3 álbuns (Igreja universal do Reino do Rock em 2006, Rock na Veia em 2010 e Rock Brasil em 2014), tocou em vários lugares do país, alistou milhares de soldados na sua Malária Army e hoje é respeitadíssima no meio musical, entrando pela porta dos fundos da indústria musical a base de pontapés! Porém, para quem está há muito tempo nessa luta, sempre ficou aquela vontade de ter um álbum editado no maldito vinil e essa espera terminou agora, com a colaboração dos selos Melômano Discos, Neves Records e Let’s Rock para lançar o aclamado Igreja Universal do Reino do Rock em uma edição de luxo, arte desbundante, com fotos inéditas, logo metalizado na capa e com aquele som de vinil que todo mundo quer.

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A faixa título é um tapa na cara para quem não conhece e é um hino que leva os fãs à loucura, com o Marcelus vociferando, a plenos pulmões: “… Rogai por nós ó Deuses do Rock…” e conquistando o ouvinte mais incrédulo. Logo entra a Blues do Satanás, velha conhecida do público, com aquela pegada headbanging que todos adoram e é onde a cozinha de Silvera e Juan mostra seu peso, sendo seguida de Salve a Malária, justa homenagem ao público curitibano (carinhosamente batizado de malária em algum ponto do final dos anos 90) que sabe a letra de cor e se livra do tinhoso no Boqueirão. Tocando o Horror é bate-estaca com letra adolescente que fala de mulher e confusão (quem não gosta?)  e a última faixa do lado A, O Caminho e as Verdades da Vida, tem uma pegada mais hillbilly, rápida e grudenta. Loudest Rock to the Crowd te remete para os bons rockões dos anos 80, com letra em inglês e refrão marcante, imediatamente seguida por Shadow Road, que como o nome já entrega, é aquela faixa ideal para pegar a estrada e sentir o vento na cara. Rock and Roll Old Fashioned é uma homenagem ao bom e velho barulho que todos nós adoramos e, não esqueça, é o que nos fez chegar até aqui, e Evil Hound é pesada e arrastada com riffs infernais de Luciano eletra soturna, fechando a conta e passando o pano no balcão do bar. Tem o CD? Compre o LP agora, antes que acabe. Nunca ouviu? Tá vacilando, piá!

Posto original do TheMetalVox:

http://themetalvox.com.br/voiceofmetal/?p=13257

O Motorocker é

  • Marcelus dos Santos – voz, violão
  • Luciano Pico – guitarra solo
  • Thomas Jefferson – guitarra rítmica
  • Silvera Krüger – baixo
  • Juan Neto – bateria, produção

Site oficial:

http://motorocker.com.br/

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Lynyrd Skynyrd – Second Helping (1974, Sounds of the South, EUA)

Um daqueles discos que parecem coletânea: tudo soa como sucesso e todo mundo conhece mas, na verdade, é fruto de trabalho duro de uma banda azeitadíssima, coordenada pela mão de ferro de Ronnie Van Zant e (novamente) com a produção impecável de Al Kooper (daí o título, já que os caras o chamaram de volta após o estrondo do primeiro álbum).

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Sorte de Leon Wilkeson, que voltou para a banda após ter abandonado o barco nas gravações do Pronounced ‘Lĕh-‘nérd ‘Skin-‘nérd (aparentemente por baixa auto-estima – o baixo foi gravado pelo Ed King) e ter se imortalizado como o Mad Hatter que todos amávamos, usando e abusando dos slides no baixo. Os ataques de três guitarras de Gary Rossington, Allen Collins e Ed King estão mais afiados que nunca e Bob Burns, normalmente preciso e contido, mostra alguns sinais de aventura, como em Working for MCA, descendo a marreta.

A lista de participações é incrível. Além do Al Kooper, Mike Porter e Bobby Keys, Merry Clayton e Clydie King fizeram vocais de apoio em Sweet Home Alabama. Essa faixa, em especial, é cheia de lendas e mitos por ser uma resposta à crítica de Neil Young em Southern Man e Alabama. Dizem que Neil ajudou a carregar o caixão de Ronnie (que suportamente usava a camiseta surrada com a estampa de Neil, conhecida pelos fãs), mas o fato que é o Lynyrd chegou a tocar as duas músicas em alguns shows e Neil chegou a executar uma versão de Sweet Home em homenagem ao recém falecido vocalista.

Versão original, do selo Sounds of the South amarelo e distribuído pela MCA (que imediatamente comprou o passe dos caras e relançou o álbum) e com uma grande diferença sonora das prensagens posteriores. Ótimo para ser apreciado com uma cerveja bem gelada ou com uma dose de bourbon e com o volume nas alturas.

Facada – Nadir (2013, Läjä Recs BR)

Banda cearense de Grindcore que destrói tudo pela frente. A já incrível demo de 2005 (que saiu em vinil 7″pela Black Hole Rec posteriormente) já mostrava do que os caras eram capazes, mas Nadir é brutal em todos os sentidos. Não é só blastbeats e vociferações, a banda soa como uma colagem de tudo que existe de doentio, estúpido e demente na natureza humana. Uma espécie de cordel produzido em um manicômio de uma encruzilhada.

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Existe espaço para passagens que mostram influência de Black Metal europeu (na faixa homônima, por exemplo), Grind britânico dos anos 80, Death Metal americano e por aí vai, provando que a escola dos músicos é a melhor possível. Pitadas de Nasum e R.D.P. permeiam o álbum, mas com uma pegada Old School impressionante.

Se você não conhece nada do que foi citado aqui mantenha distância. Aos fãs de Grindcore, um petardo imperdível. A versão em vinil branco é fenomenal, diga-se de passagem.

E esse final do disco é de cair o cu do frade.

Napalm Death – Harmony Corruption (1990, Earache UK)

Disco polêmico, na época (como a maioria do Napalm Death, diga-se de passagem), pois aproximou o som da banda ao Death Metal, incomodando os fãs de Punk e Grindcore. Boa parte da “culpa” é pela entrada de novos músicos relacionados com o estilo (Jesse Pintado, Mitch Harris e Mark “Barney” Greenway), tendendo a um som mais trabalhado e músicas mais longas. Em 1990 a banda já não tinha mais nenhum músico original e já poderia ser considerada uma entidade do Underground.

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Essa cópia, original da época, é uma versão com um segundo disco, ao vivo no I.C.A. de Londres, com algumas faixas clássicas e coisas do disco novo. Eu nunca tinha visto uma dessas pois na época os CDs invadiram o mercado e esse foi um dos primeiros que chegaram na Maniac em Salvador (obviamente copiados em tape) e a versão em vinil simples se tornou rara ainda em 1990.

VA – Afflicted cries in the darkness of war (1986, New Face, BR)

Lançada pelo selo do Fábio (Olho Seco), essa coletânea traz 4 das principais bandas da cena sueca na década de 80: Anti Cimex, Crude SS, Fear of War e Rövsvett. O disco é uma desgraceira e quem me conhece sabe que eu influenciei muita gente com esse álbum e atormento até hoje as pessoas à minha volta com essas músicas, sobretudo a Victims Of A Bomb Raid, com uma letra assustadora.

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Constatei que cada disco de uma coleção tem uma história, seja ela relevante ou não, mas existem algumas bem interessantes que devem ser contadas.

Entre 1986 e 1987 eu estava ouvindo muita coisa realmente Underground e cada vez mais me interessei por Hardcore (o de verdade, que poucos ousavam ouvir). Muitos amigos Punks da Cidade Baixa, em Salvador – BA, me indicaram a loja Not Dead (que tinha um dos elevadores mais assustadores que eu já usei) e lá achei esse petardo e o levei após uma apresentação do som pela queridíssima Jardel, a proprietária do estabelecimento. É um dos itens preferidos de todos os tempos da minha coleção e muitos anos depois caí na besteira de emprestar a um aluno/amigo (entenda, não me arrependo de emprestar o disco ao Aureliano e, sim, por não ter ido buscar no dia seguinte) e ele acabou o perdendo (após deixá-lo mais sofrido que camiseta de time de várzea após o campeonato).

Eu sempre brincava com o Nano que esse era meu desafeto com ele (o que não é verdade, eu só queria sacaneá-lo) mas confesso que perdi muitas noites resmungando que adorava esse disco – e colecionadores sabem muito bem como é isso. Minha grata surpresa é que, após fuçar sem muito objetivo em um desses sites de leilões e vendas, normalmente oferecendo esse álbum por valores absurdos, consegui uma cópia em ótimo estado e por um preço justíssimo, preenchendo A lacuna na coleção.

Ascaridil, pode dormir tranquilo. Eu, com certeza, não terei mais pesadelos tentando imaginar como o meu disco estaria.

Taste – Off the Boards (1979, ATCO EUA).

Cópia de prensagem original americana, com uma sonoridade impressionante.

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É o segundo álbum da banda de Rory Gallagher, que já tem a cara do material que viria à seguir, que levaria seu nome. Reza a lenda que ele saiu da banda, desmantelando-a, por não ter coragem de dispensar os colegas, mas no documentário Ghost Blues o irmão Donal conta que a banda estava desgastada pela falta de reconhecimento.

A faixa Morning Sun é de um peso fenomenal e poderia estar no set list do primeiro disco solo sem destoar. Como eu não tenho preferência entre os discos do Taste só posso recomendar que você tenha todos!

Rory Gallagher – The Beat Club Sessions (Back on Black Rock Classics UK, 2010)

Lançado em 2010 pela Back on Black, o álbum duplo, com vinil 180 gramas, reúne o áudio das gravações do Rory Gallagher na série de TV alemã Beat Club em três apresentações diferentes, totalmente baseadas nos seus dois primeiros discos.

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O disco segue com a pegada típica dos álbuns, com a energia das apresentações ao vivo. O lado A começa com a arrasa-quarteirão Laudromat, emendada com a Hands Up e fechando com Sinnerboy. Não tem como ficar ruim isso! No lado seguinte a coisa segue um pouco mais calma, com o ambiente mezzo-mississipi, mezzo-dublin da Just the Smile, e continua com I Don’t Know Where I’m Going, a primeira do álbum Deuce que aparece. Fico imaginando como reagiu quem viu isso ao vivo, na época, pois ele estava inspirado, criativo e afiado como uma lâmina. Em I Could’ve Had Religion você é movido imediatamente para Chicago e esquece que Rory era branco. O timbre da Telecaster dele está diabólico, não tem como você não se render ao chamado do Blues.

Na troca do disco já começo bem, pois Used to Be foi a primeira música que ouvi dele, em uma cópia de uma coletânea chamada “Guitar Heroes” em VHS. Essa versão, obviamente está completa e fenomenal, mais rápida e mais pesada. In Your Town e a lenta Should’ve Learned My Lesson finalizam o lado C com uma energia fora do comum, que você raramente ouve em um disco. O último lado tem a sequência de Crest Of A Wave, a versão para Toredown (Sonny Thompson e Freddie King) e a Messin With The Kid (do Junior Wells) e, quando acaba, não te deixa outra alternativa: começar tudo de novo!

Queen – A Night At The Opera (EMI UK, 1975)

Essa é a versão bootleg da publicação da entrevista com meu amigo Marcos Paulo no seu site (http://www.cwblive.com/), pois algumas coisas mais interessantes do meu texto original não puderam sair por falta de espaço.  Enjoy it!

A despeito de não ser o meu álbum favorito, o A Night at the Opera é um clássico absoluto, de todos os tempos. Eu duvido que exista um disco tão bem produzido como esse, e não é exagero: desde a concepção da arte ao som, com inúmeras camadas, a sua audição sempre surpreende.

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Mas a minha história com o Queen começa 5 anos depois do lançamento dele, em 1980. Quem morou em Salvador entre as décadas de 70 e 80 sabe que o Shopping Iguatemi não era um lugar adequado para colecionadores de discos. No máximo algumas lojas mais criteriosas, como a Sears/Sandiz, vendiam algo de qualidade (e bem caro!). Mas eu era um moleque e vi, nas Lojas Americanas, um álbum com um robô estampado. E fiz algo que era comum na época e faço, com muito mais critério, claro, até hoje: comprei o disco pela capa. Não fiquei muito empolgado, pois o toca disco da casa era bem ruim, mas eu olhava para o News of the World com admiração e, inspirado, passei a tentar acompanhar algumas músicas com um violão, sem sucesso.

Na escola conheci um grande fã do Queen, Carlson Monteiro (amigo de longas datas) que começou a me mostrar coisas mais acessíveis, como o The Game e o famigerado Hot Space. E acabamos ouvindo o A Night at the Opera, e QUE DISCO! Na época, já em 1983, o Queen estava em um hiato na carreira e a única novidade era o Star Fleet, projeto solo do Brian May com participação do Eddie Van Halen. Ainda empolgados com os shows no Morumbi dois anos antes (gravado em cassete, que tenho até hoje, com uma qualidade impressionante pelas condições na época – um casador de impedância feito por mim ligava a saída de fones da TV ao meu gravador AIKO de mão), mas o “álbum branco do Queen” era diferente, arrojado, desafiador e erudito.

Não entendíamos o humor de Lazy on Sunday Afternoon (nem a homenagem ao Small Faces, que sequer havia ouvido falar, na época), por exemplo, ou o motivo de tanta raiva na interpretação de Death on Two Legs, mas vibrávamos com cada faixa, cada estrofe e cada solo. E eu ficava cada vez mais impressionado com o baixo, já que John Deacon não se prendia a execução trivial de acompanhar o bumbo, e viajava nas linhas criativas que, posteriormente, descobri que ele usou nada menos que 3 trilhas (!) na fita master da gravação.

O álbum A Night at the Opera, produzido por Roy Thomas Baker e Queen, foi lançado em 21 de Novembro de 1975, ganhando inúmeros prêmios ao longo dos seus quase 40 anos de idade e coleciona uma série de curiosidades. Vejamos algumas delas:

•             É o quarto álbum de estúdio da banda e foi uma grande aposta do grupo, Brian May afirmou que se o disco não fizesse sucesso eles poderiam declarar falência e provavelmente se separariam, já que haviam cancelado um contrato leonino e estavam com as contas negativas;

•             Foi classificado, em 1975, como a produção mais cara de um álbum;

•             Bohemian Rhapsody é um single sui-generis, pois as rádios se recusavam a tocar algo com mais de 2 ou 3 minutos;

•             Conta a lenda que Kenny Everett recebeu uma fita com BohRap para ouvir a versão recém-mixada da música, prometendo não tocá-la na rádio onde era DJ, a Capital Radio de Londres. Obviamente ele não cumpriu a “promessa” e a tocou 14 vezes em dois dias, criando um frisson que catapultou a venda do album e do single, lançados posteriormente;

•             A banda não tinha idéia de como Bohemian Rhapsody ficaria. Ela é a junção de 3 músicas distintas e um interlúdio de galileos que introduziriam a parte mais pesada. Os membros remanescentes do Queen creditam toda grandiosidade da música à Freddie Mercury;

•             Bohemian Rhapsody entrou para o Grammy Hall of Fame em 2004. A despeito do seu sucesso ela não tem um refrão e costuma-se creditar o seu vídeo promocional como o primeiro “video-clip” da história, formato popularizado no final da década seguinte.

•             O título do álbum (e o do seguinte) é baseado nos filmes dos Irmãos Marx. Uma lenda conta que existia um projeto para um disco chamado Duck Soup, que nunca foi lançado além de um bootleg de um show em Seattle, em 1977. Uma grande falha, pois o filme homônimo saiu antes do A Nigh at the Opera, em 1935. Ainda sobre o assunto, um dos episódios mais hilários da banda foi o encontro com Groucho Marx em sua casa, justamente sobre o título do álbum.

Com o estrondoso sucesso do disco a banda conseguiu equilibrar as contas e ver o dinheiro entrando, graças a John Reid, que era empresário do Elton John e “arrumou a casa”. O disco seguinte, A Day at the Races, eleva o nível musical e tem o auge no concerto grátis, ao ar livre, no Hyde Park. Detratores criticaram a banda por “fazer a fama e deitar na cama” a partir do News of the World e principalmente (com razão) com o Hot Space. A banda encerrou suas atividades com o falecimento de Freddie Mercury em 1991, após 5 anos com trabalhos exclusivamente em estúdio – suas últimas apresentações ao vivo foram na Magic Tour, em 1986.

E agora você deve estar querendo saber qual meu álbum favorito do Queen, não é? Por mais incrível que possa parecer, é o Queen II, de 1974. Mas essa é uma outra história…

Bad Company – Bad Company (Swan Song, USA, 1974)

Cheguei ao Bad Company (faz muito tempo) quando soube que eles gravaram um cover do Moot the Hoople (Ready for Love), que eu conhecia por ser a banda que o Queen abriu, em 1974.

Que surpresa! Era banda dos caras do Free e esse disco tem um pouco dos últimos discos deles. Soube, inclusive, que eles caíram nas graças de Peter Grant e o contrato com a Swan Song era inevitável.

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Gravado na Headley Grange com o estúdio móvel do Ronnie Lane’s em novembro de 1973, é um belo disco, com uma boa referência ao som do Free, mas com um pé no mercado americano.

Particularmente acho o direcionamento AOR dos lançamentos posteriores perdem a referência mais crua e às raízes da banda. Mas esse disco é um exemplo que boa música não precisa de muita presepada.